domingo, 6 de novembro de 2011

4migas

E o mundo parecia estar encolhendo
Assim como o tempo encurtando
Tudo parecia estar mais apertado
Os sapatos
As camisas
As meias

A cama estava menor
O teto aproximava cada vez mais do chão
O sol parecia mais próximo
E o mar bem menor virava lagoa

As ruas diminuíram
E as cadeiras também
Os copos agora pareciam de brinquedo
E os carros estavam como que miniaturas

O dia estava com 22 horas
Depois 17
Depois 15!
Já não estava cabendo todos dentro de casa
E as pequenas e estreitas ruas não suportavam mais tanta gente

A floresta agora parecia uma hortinha
E as distâncias encurtaram
Mas as formigas estavam crescendo?
Ou estariam com o mesmo tamanho?

Já dava para avistar a África da montanha
Mas a montanha nem estava mais tão alta.
As nuvens estavam por entre a gente
E as grandes coisas
Agora são médias coisas

As únicas coisas que não mudavam eram os cheiros
As cores
E as formigas

Jonatas Pierre


Avenda

Isaac: Toc Toc. O de casa!
Flora: Quem é?
Isaac: A senhorita poderia dar uma chegadinha aqui fora? É que estou vendendo a lua e tenho certeza que vai querer comprar.
Flora: Mas a lua está a venda? Olha olha seu moço... Está querendo me enganar...
Isaac: Não estou não e olha que a sua casa é a primeira que bato, se não quiser seu vizinho pode querer e só tenho uma lua hein...
Flora: Hum. E ela tem valor? É caro?
Isaac: Posso te dar alguns descontos ou facilitar o pagamento.
Flora: Mesmo assim, não sei se poderei pagar... As facilidades serão boas?
Isaac: Ah, serão sim e tenho certeza que conseguirá pagar sim senhorita.
Flora: E qual será a bagatela?
Isaac: Mil e duzentos e trinta e três dias sorrindo para ao menos uma pessoa por dia.
Flora: Mas ela será só minha?
Isaac: Será totalmente e exclusivamente só sua e te dou a certeza de que ela não murcha, estraga ou some. Não precisa de garantia e nem de fiador.
Flora: Mas ai as outras pessoas vão deixar de apreciá-la... Não sei se seria justo...
Isaac: Claro que não senhorita, você cobra aluguel! Pode pedir três sorrisos por dia para cada um que sairá lucrando, eu garanto.
Flora: Hum! Negócio fechado!
Isaac: Não se arrependerá.
Flora: Não mesmo... Eu pago 1 e ganho 3...
Isaac: Se não for tomar seu tempo, tenho também um sol pra vender, mas ele é mais caro...
Flora: Hum!
Isaac: Talvez em um próximo encontro lhe ofereça. É que agora a noite ele está guardado e não teria nem como lhe mostrar.
Flora: Está bem, mas vai pensando em meus descontos... Ai quando puder me mostrar ele nós negociaremos...
Isaac: Você terá sempre preferência moça dos olhos bonitos.
Flora: Bom saber...
Isaac: Se lhe interessar moça, tenho também alguns mares, algumas montanhas e nuvens.
Flora: E isso tudo está a venda ou tu vai me dar algum de presente?
Isaac: Poxa, como sei que você será uma cliente fiel, na compra de outro de meus produtos ganhará alguns brindes.
Flora: Assim está ficando melhor, mas nesse negócio da lua não ganho nada?
Isaac: Bem, na medida em que for pagando pela lua vou lhe dando algumas  estrelas, combinado?
Flora: Claro! Agora ficou ainda melhor... Mas eu não posso pagar a lua adiantada? Cada 30 sorrisos equivale a 30 dias? Assim eu ganhava as estrelas mais cedo...
Isaac: Ai me aperta senhorita. Já são mil duzentos e trinta e três dias e cada dia é necessário o mínimo de um sorriso e ilimitado o máximo.
Flora: Pensa com carinho moço... Vai
Isaac: Posso lhe assegurar que ganhará muitas estrelas senhorita.
Flora: Hum. Quero só ver...
Isaac: Amanhã a noite já disponibilizo uma estrela, mas não me responsabilizo por nuvens hein.
Flora: Está bem.
Isaac: Obrigado e tenha uma ótima noite senhorita.
Flora: Você também!

Jonatas Pierre

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Tem Pó

Ele poderia ter nascido de outros pais?
Em outro tempo e espaço?
Seria coincidência?
Mero acaso
Ou teria algum propósito?

Passamos nossa vida inteira escolhendo
Escolhemos até mesmo estar vivos
Mas não escolhemos onde e quando nascer
Nem muitas vezes onde, como e quando morrer

Vida e morte
Inicio e fim

O mundo é criado quando nascemos
E acaba quando morremos
Conhecemos de perto as coisas, os seres
Seguimos uma vida quase que ditada
Como personagens em um grande romance

Elementos funcionais de um ciclo vicioso
Porcas, parafusos e catracas
Da engrenagem de uma máquina viva universal

Controlados pelo tempo
Tempo contado no relógio
Hora de trabalhar
Hora de dormir
Hora de comer

Temos horas
E a falsa impressão de controlarmos elas
Já não temos mais tempo
Vivemos correndo
E agora está passando a hora de realmente vivermos

Jonatas Pierre

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Imagine Só

Imagine se todos parassem ao mesmo tempo
Nos quatro cantos do mundo
Exatamente onde e como estão
E ficasse um dia
Apenas um dia completamente parados

Caos e paz ao mesmo instante

Imagine se todos parassem de produzir ao mesmo tempo
Nos quatro cantos do mundo
Simplesmente não comprariam também
E ficassem dois dias
Apenas dois dias completamente sem produzir e sem comprar

Paz e caos ao mesmo instante

Agora imagine se toda a natureza parasse de viver ao mesmo tempo
Nos quatro cantos do mundo
Exatamente sem qualquer movimento
E ficasse trinta minutos
Apenas trinta minutos completamente parada

Caos completo

Jonatas Pierre

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Escrê e Vendo

Estou escrevendo
Escrevendo para uma moça qualquer
Que não tem nome
Não tem forma e nem endereço

Que sempre sorri
Que me pisca os olhos
E mexe as sobrancelhas

Arruma os cabelos
E morde os lábios
Que abaixa o rosto
E fita um olhar

Olhar tímido e com desejo
Fera inocente
Puro brilhar de alma limpa
Que me hipnotizam
Convidam-me para dançar
E me chamam para sair por ai
Sem ter hora de voltar

Ela não é como se espera
E não adianta esperar
Ela é todas em um só ser
Ela está em todos os lugares
Em cada esquina
Sentada em todas as pedras
Ela está no espelho
E talvez lá nem todos possam entrar

Ah se eu pudesse entrar nesse espelho
E seu lindo rosto tocar
Seu cheiro sentir e em suas mãos pegar
Roçar seus cabelos e bem próximo ao seu ouvido falar

Falar as mais belas poesias
Em doces melodias
Com leves harmonias
Falaria do sol
Falaria da vida
Falaria das cores
Dos sabores
Dos serenos e do luar

Falaria do amor
Que acaso seria um descobridor
Aventurando a falar por ele
A essa bela flor

Do amor que é um mistério
Que se desenha dentro de cada coração
O amor é um convidado estrangeiro a cada chegada

Seria um reencontro
De duas peças que na infância foram separadas
Um envolver dos corpos
Que a muitos se buscavam

Ela passaria a ter forma
Diante meus olhos
Ela atravessaria o espelho de volta

Os astros bateriam palmas
As estrelas assobiariam
As ondas por um instante cessariam
E os bichos começariam a cantar

Não sei se algum dia essa moça do espelho vou encontrar
Mas um dia desses posso ser encontrado
Pois posso estar em um espelho
De uma moça qualquer que me busca encontrar

Jonatas Pierre

domingo, 30 de outubro de 2011

Dança

Queria soprar
Soprar um ventinho
Um ventinho de felicidade
Pra invadir canto qualquer
Em qualquer canto da cidade

Estou apaixonado pelos sons
Pelas notas
E pela ausência delas
Sou um apaixonado

Talvez como uma pipa
Dessas que enfeitam o céu limpo de nuvens
Dessas que giram
Que giram sem parar

Que dança com os pássaros
Que desce rasante
E logo com mais linha
Finge que cai
E basta uma seguradinha
E está lá toda empinadinha

Dança
Dança de um lado para o outro
E balança as fitas
E levanta pescoços
E seduz olhos
Arranca sorrisos
E enfeita o céu

Jonatas Pierre

domingo, 16 de outubro de 2011

Ami

Existe algo que não tem preço
Não tem tempo
Não tem lugar
Não tem tamanho e nem medida

Não possui forma
Não se pode pegar
Não se vende
E nem se pode alugar

Não ver cor
Não faz juízo
Não se troca
E nem fica solto pelo ar

Sente-se no peito
Sente-se na alma
É todas as cores
Todos os cheiros e todos os sabores

Está nos gestos
Nas ações e nas palavras
Nos abraços e nos olhares
Está na mente
No coração e em todas as células

Está presente
É um presente
É o sol, a chuva e o luar
É o choro, o sorriso
É a esperança, é o despertar

É o mistério revelado
É o inexplicável explicável
Sem fronteira, sem passagem
Sem pedágio ou hospedagem

É puro
É essência
É tudo
É qualquer lugar

É simples
É felicidade
É amor
É a AMIZADE

Jonatas Pierre

sábado, 15 de outubro de 2011

A Pai Xonado

Seria tudo verdade?
A única forma de saber é perguntando e ele não tem tamanha coragem.
Prefere esperar.

Não sabe o que é o tempo,
Mas segue o dito popular:
Acredita que se tiver que ser, será.

É muito pessimista para acreditar,
Procura num gesto ou num olhar,
Fica sem jeito ao se aproximar.
Erra palavras, deixa cair o papel,
Sorri sem graça e tenta disfarçar a vergonha.

Soa frio.
Sente o coração disparar.
Fica nervoso
E nos olhos dela não consegue olhar.

Nunca sentira isso.
A respiração muda ao lado dela
O corpo fica como que flutuando
Tem a certeza que está apaixonado.
Está escrito em seus olhos: Estou amando.

Jonatas Pierre

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Vire-se

O sol ainda brilha
Sei por que mesmo com nuvens cinza
Ainda é claro durante o dia
Mas meu medo é de quando ficará apenas a escuridão

A terra é seca
Não tem mais cor e nem cheiro
Ainda lembro como era uma flor
Lembro dos brotos, das cores, da beleza...

Conto, e ninguém acredita
Lembro das borboletas
De seus casulos e de seus voos
Lembro.

Não queria ter chegado até aqui, mas cheguei
Falo dos rios, falo do mar
Falo dos peixes, falo das músicas
Falo do pensar

Não queria tomar água em cápsulas
Nem usar aparelho para respirar

Queria andar pelos bosques da vida
Voltar no tempo ou nadar
Queria comer frutas colhidas
Olhar formigas ou ter livros para estudar
Mas o que queria mesmo
Eram os seres humanos de volta
E ensiná-los a amar e a cultivar
Pois hoje se tem apenas seres semi-vivos
Sem os sentidos e sem o pensar

Jonatas Pierre

domingo, 9 de outubro de 2011

Personal Idade

Jacob escutou a seguinte frase: “Eu tenho a personalidade forte.” E logo se pos a pensar.
O que seria essa personalidade? Algum músculo da perna? Um tipo de segurança feminina? Alguma mulher famosa que fosse bem forte e musculosa?

Foi logo ao dicionário procurar uma definição: “Caráter essencial e exclusivo de uma pessoa”.

Tudo bem, Jacob entendeu com isso que seria mais ou menos como uma roupa que a pessoa vestia, porém, as pessoas não vestem a mesma roupa todos os dias, além de alterarem nas roupas comuns, ainda existem as fantasias.

Encontrou outro problema, se as roupas podem ser compradas em lojas... então existiria um quiosque de personalidades? Do tipo ‘Personalidade Infanto/Juvenil e Adulta’

Ele se interessou no assunto e decidiu aprofundar. Perguntou a seu pai como adquirir uma personalidade, pois queria uma bem forte, inteligente e bonita. Ouviu de seu pai que a personalidade poderia sim ser entendida como uma roupa, mas não ao pé da letra, mas como uma roupa que começou a ser produzida desde o nascimento da pessoa e vai se desenvolvendo e se ajustando na medida em que o sujeito vai crescendo.

Jacob não entendia como uma pessoa poderia usar apenas uma ‘roupa’, porém, logo se deparou com um novo termo – Personalidade Múltipla. Pronto, agora as coisas estavam começando a ficarem claras na cabeça dele. Realmente muitas pessoas usam mais de uma ‘roupa’ por diversos motivos diferentes, além de conseguir agora relacionar completamente as fantasias.

Ora muda-se por fuga, ora muda-se por traumas, ora muda-se por insegurança ou frustração, ora muda-se por mudar ou por habituar-se a mudar, ora até mesmo por questões patológicas.
Entendeu que cada roupa tinha toda a sua história, sua marca e sua particularidade, como se fossem papeis, personagens que quando assumem o controle ou o ‘palco’, comandam e se ‘exibem’. Mas essa troca seria consciente?

Jacob sentiu vontade de dormir e trocou sua personalidade de curioso pela de soneca.

Jonatas Pierre

sábado, 1 de outubro de 2011

Bailarina

Gosto do som da caixinha da bailarina.
Gosto de vê-la rodar.
De um canto até o outro
Até parar.

Gosto de dar mais corda
E vê-la começar a dançar novamente
Ora roda para esquerda,
Ora roda para direita
Apenas em uma perna
Sem tontear.

E o som...
Ah o som...
O som embala a imaginação.
Alivia a respiração.
Envolve o tato, olfato, audição e a visão.

Gosto do som da caixinha da bailarina
Ah como gosto.

Jonatas Pierre

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Som Inhô

E o vazio do silêncio conduzia seu coração
Ele só ouvia a própria respiração
Já não queria mais abrir os olhos
Na mente, tudo vivo como se fosse um filme colorido
Passando sequencialmente sem repetição e intervalo.

Sentia frio
As pontas dos dedos já não tinham sensibilidade
Até que a cabeça começou a doer.

Sentiria as flores frio?
Doeria nas folhas as gotas de chuva?
O que significa estar vivo?

As costas estralavam
Ele se mexia violentamente de um lado para outro
Não conseguia gritar

Num ato de desespero
Se jogou
E em vez de cair
Ele levantou
Ele acordou
Abriu os olhos
Sorriu
Espreguiçou e se sentiu vivo.

Jonatas Pierre

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Brinca

João queria um carrinho de controle remoto,
mas seu pai não tinha dinheiro
e ele foi pra rua brincar.

Paulinho queria brincar na rua,
mas seu pai tinha dinheiro
e um carrinho de controle remoto ele vai ganhar.

Jonatas Pierre

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Isaac e Seu Carrinho de Papelão

Ele não tinha rodas, não tinha pneu e nem volante,
Mas levava Isaac onde ele quisesse.
Ele não tinha janela, não tinha porta e nem cano de descarga,
Mas corre e levanta poeira como nenhum outro carrinho faz.
Ele não tinha porta-malas, não tinha bancos e nem freio de mão,
Mas faz barulho igual a um avião.
Ele não tinha motor, não tinha placa e nem retrovisor,
Mas para e estaciona em qualquer lugar que quiser.
Ele não tinha vidros, não tinha farol e nem amortecedor,
Mas buzina e derrapa como se fosse um astro.
Ele não tinha limpador, não tinha bagageiro e nem carburador,
Mas salta os obstáculos feito um canguru voador.
Ele não tinha para-choques, não tinha rádio e nem gastava gasolina,
Mas faz qualquer curva sem capotar.
Ele não tinha luz de ré, não tinha ar condicionado e nem acelerador,
Mas chama atenção onde quer que passe.
Ele não tinha pintura, não tinha adesivo e nem forma,
Mas é o melhor carrinho do mundo.

O carrinho do Isaac.
Uma caixinha de papelão.
O carrinho do Isaac.
O carrinho da imaginação.

Jonatas Pierre

domingo, 18 de setembro de 2011

Mesmo


A vida já não lhe dava mais escolhas
Era pegar ou largar
Ele já não sabia o que fazer
Há anos faz o mesmo percurso
De casa ao trabalho
Do trabalho pra casa
Nos mesmos horários

Tudo estava sempre no seu mesmo lugar
As mesmas pessoas no ponto
Reclamando e conversando as mesmas coisas
Os mesmo carros saindo das mesmas garagens
As árvores e postes também eram os mesmos
Ele ria

Não se conformava com tamanha conformidade
Achava-se livre e muito esperto
Mas não sabia que era apenas mais um no cenário

Ele fazia todo dia as mesmas coisas
Passava pelo ponto de ônibus olhando para todos
Abaixava e amarrava o cadarço de seu tênis que estava sempre desamarrado

Para um pouco e ficava olhando para os carros saindo das garagens
Um por um
Virava-se e olhava os postes e as árvores
Ria e continuava o seu mesmo caminho diário


Jonatas Pierre