quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Vire-se

O sol ainda brilha
Sei porque mesmo com nuvens cinzas
Ainda é claro durante o dia
Mas meu medo é de quando ficar apenas a escuridão

A terra é seca
Não tem mais cor e nem cheiro
Ainda lembro como era uma flor
Lembro dos brotos, das cores, da beleza...

Conto e ninguém acredita
Lembro das borboletas
De seus casulos e de seus voos
Lembro.

Não queria ter chegado até aqui, mas cheguei
Falo dos rios, falo do mar
Falo dos peixes, falo das músicas
Falo do pensar

Não queria tomar água em cápsulas
Nem usar aparelho para respirar

Queria andar pelos bosques da vida
Voltar no tempo ou nadar
Queria comer frutas colhidas
Olhar formigas ou ter livros para estudar

Mas o que eu quero mesmo
São os seres humanos de volta
E reensiná-los a amar e a cultivar
Pois hoje se tem apenas seres semi-vivos
Sem os sentidos e sem o pensar

Jonatas Pierre

domingo, 9 de outubro de 2011

Personal Idade

Jacob escutou a seguinte frase: “Eu tenho a personalidade forte.” E logo se pos a pensar.
O que seria essa personalidade? Algum músculo da perna? Um tipo de segurança feminina? Alguma mulher famosa que fosse bem forte e musculosa?

Foi logo ao dicionário procurar uma definição: “Caráter essencial e exclusivo de uma pessoa”.

Tudo bem, Jacob entendeu com isso que seria mais ou menos como uma roupa que a pessoa vestia, porém, as pessoas não vestem a mesma roupa todos os dias, além de alterarem nas roupas comuns, ainda existem as fantasias.

Encontrou outro problema, se as roupas podem ser compradas em lojas... então existiria um quiosque de personalidades? Do tipo ‘Personalidade Infanto/Juvenil e Adulta’

Ele se interessou no assunto e decidiu aprofundar. Perguntou a seu pai como adquirir uma personalidade, pois queria uma bem forte, inteligente e bonita. Ouviu de seu pai que a personalidade poderia sim ser entendida como uma roupa, mas não ao pé da letra, mas como uma roupa que começou a ser produzida desde o nascimento da pessoa e vai se desenvolvendo e se ajustando na medida em que o sujeito vai crescendo.

Jacob não entendia como uma pessoa poderia usar apenas uma ‘roupa’, porém, logo se deparou com um novo termo – Personalidade Múltipla. Pronto, agora as coisas estavam começando a ficarem claras na cabeça dele. Realmente muitas pessoas usam mais de uma ‘roupa’ por diversos motivos diferentes, além de conseguir agora relacionar completamente as fantasias.

Ora muda-se por fuga, ora muda-se por traumas, ora muda-se por insegurança ou frustração, ora muda-se por mudar ou por habituar-se a mudar, ora até mesmo por questões patológicas.
Entendeu que cada roupa tinha toda a sua história, sua marca e sua particularidade, como se fossem papeis, personagens que quando assumem o controle ou o ‘palco’, comandam e se ‘exibem’. Mas essa troca seria consciente?

Jacob sentiu vontade de dormir e trocou sua personalidade de curioso pela de soneca.

Jonatas Pierre

sábado, 1 de outubro de 2011

Bailarina

Gosto do som da caixinha da bailarina.
Gosto de vê-la rodar.
De um canto até o outro
Até parar.

Gosto de dar mais corda
E vê-la começar a dançar novamente
Ora roda para esquerda,
Ora roda para direita
Apenas em uma perna
Sem tontear.

E o som...
Ah o som...
O som embala a imaginação.
Alivia a respiração.
Envolve o tato, olfato, audição e a visão.

Gosto do som da caixinha da bailarina
Ah como gosto.

Jonatas Pierre

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Som Inhô

E o vazio do silêncio conduzia seu coração
Ele só ouvia a própria respiração
Já não queria mais abrir os olhos
Na mente, tudo vivo como se fosse um filme colorido
Passando sequencialmente sem repetição e intervalo.

Sentia frio
As pontas dos dedos já não tinham sensibilidade
Até que a cabeça começou a doer.

Sentiria as flores frio?
Doeria nas folhas as gotas de chuva?
O que significa estar vivo?

As costas estralavam
Ele se mexia violentamente de um lado para outro
Não conseguia gritar

Num ato de desespero
Se jogou
E em vez de cair
Ele levantou
Ele acordou
Abriu os olhos
Sorriu
Espreguiçou e se sentiu vivo.

Jonatas Pierre

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Brinca

João queria um carrinho de controle remoto,
mas seu pai não tinha dinheiro
e ele foi pra rua brincar.

Paulinho queria brincar na rua,
mas seu pai tinha dinheiro
e um carrinho de controle remoto ele vai ganhar.

Jonatas Pierre

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Isaac e Seu Carrinho de Papelão

Ele não tinha rodas, não tinha pneu e nem volante,
Mas levava Isaac onde ele quisesse.
Ele não tinha janela, não tinha porta e nem cano de descarga,
Mas corre e levanta poeira como nenhum outro carrinho faz.
Ele não tinha porta-malas, não tinha bancos e nem freio de mão,
Mas faz barulho igual a um avião.
Ele não tinha motor, não tinha placa e nem retrovisor,
Mas para e estaciona em qualquer lugar que quiser.
Ele não tinha vidros, não tinha farol e nem amortecedor,
Mas buzina e derrapa como se fosse um astro.
Ele não tinha limpador, não tinha bagageiro e nem carburador,
Mas salta os obstáculos feito um canguru voador.
Ele não tinha para-choques, não tinha rádio e nem gastava gasolina,
Mas faz qualquer curva sem capotar.
Ele não tinha luz de ré, não tinha ar condicionado e nem acelerador,
Mas chama atenção onde quer que passe.
Ele não tinha pintura, não tinha adesivo e nem forma,
Mas é o melhor carrinho do mundo.

O carrinho do Isaac.
Uma caixinha de papelão.
O carrinho do Isaac.
O carrinho da imaginação.

Jonatas Pierre

domingo, 18 de setembro de 2011

Mesmo


A vida já não lhe dava mais escolhas
Era pegar ou largar
Ele já não sabia o que fazer
Há anos faz o mesmo percurso
De casa ao trabalho
Do trabalho pra casa
Nos mesmos horários

Tudo estava sempre no seu mesmo lugar
As mesmas pessoas no ponto
Reclamando e conversando as mesmas coisas
Os mesmo carros saindo das mesmas garagens
As árvores e postes também eram os mesmos
Ele ria

Não se conformava com tamanha conformidade
Achava-se livre e muito esperto
Mas não sabia que era apenas mais um no cenário

Ele fazia todo dia as mesmas coisas
Passava pelo ponto de ônibus olhando para todos
Abaixava e amarrava o cadarço de seu tênis que estava sempre desamarrado

Para um pouco e ficava olhando para os carros saindo das garagens
Um por um
Virava-se e olhava os postes e as árvores
Ria e continuava o seu mesmo caminho diário


Jonatas Pierre