domingo, 6 de novembro de 2011

Avenda

Isaac: Toc Toc. O de casa!
Flora: Quem é?
Isaac: A senhorita poderia dar uma chegadinha aqui fora? É que estou vendendo a lua e tenho certeza que vai querer comprar.
Flora: Mas a lua está a venda? Olha olha seu moço... Está querendo me enganar...
Isaac: Não estou não e olha que a sua casa é a primeira que bato, se não quiser seu vizinho pode querer e só tenho uma lua hein...
Flora: Hum. E ela tem valor? É caro?
Isaac: Posso te dar alguns descontos ou facilitar o pagamento.
Flora: Mesmo assim, não sei se poderei pagar... As facilidades serão boas?
Isaac: Ah, serão sim e tenho certeza que conseguirá pagar sim senhorita.
Flora: E qual será a bagatela?
Isaac: Mil e duzentos e trinta e três dias sorrindo para ao menos uma pessoa por dia.
Flora: Mas ela será só minha?
Isaac: Será totalmente e exclusivamente só sua e te dou a certeza de que ela não murcha, estraga ou some. Não precisa de garantia e nem de fiador.
Flora: Mas ai as outras pessoas vão deixar de apreciá-la... Não sei se seria justo...
Isaac: Claro que não senhorita, você cobra aluguel! Pode pedir três sorrisos por dia para cada um que sairá lucrando, eu garanto.
Flora: Hum! Negócio fechado!
Isaac: Não se arrependerá.
Flora: Não mesmo... Eu pago 1 e ganho 3...
Isaac: Se não for tomar seu tempo, tenho também um sol pra vender, mas ele é mais caro...
Flora: Hum!
Isaac: Talvez em um próximo encontro lhe ofereça. É que agora a noite ele está guardado e não teria nem como lhe mostrar.
Flora: Está bem, mas vai pensando em meus descontos... Ai quando puder me mostrar ele nós negociaremos...
Isaac: Você terá sempre preferência moça dos olhos bonitos.
Flora: Bom saber...
Isaac: Se lhe interessar moça, tenho também alguns mares, algumas montanhas e nuvens.
Flora: E isso tudo está a venda ou tu vai me dar algum de presente?
Isaac: Poxa, como sei que você será uma cliente fiel, na compra de outro de meus produtos ganhará alguns brindes.
Flora: Assim está ficando melhor, mas nesse negócio da lua não ganho nada?
Isaac: Bem, na medida em que for pagando pela lua vou lhe dando algumas  estrelas, combinado?
Flora: Claro! Agora ficou ainda melhor... Mas eu não posso pagar a lua adiantada? Cada 30 sorrisos equivale a 30 dias? Assim eu ganhava as estrelas mais cedo...
Isaac: Ai me aperta senhorita. Já são mil duzentos e trinta e três dias e cada dia é necessário o mínimo de um sorriso e ilimitado o máximo.
Flora: Pensa com carinho moço... Vai
Isaac: Posso lhe assegurar que ganhará muitas estrelas senhorita.
Flora: Hum. Quero só ver...
Isaac: Amanhã a noite já disponibilizo uma estrela, mas não me responsabilizo por nuvens hein.
Flora: Está bem.
Isaac: Obrigado e tenha uma ótima noite senhorita.
Flora: Você também!

Jonatas Pierre

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Tem Pó

Ele poderia ter nascido de outros pais?
Em outro tempo e espaço?
Seria coincidência?
Mero acaso
Ou teria algum propósito?

Passamos nossa vida inteira escolhendo
Escolhemos até mesmo estar vivos
Mas não escolhemos onde e quando nascer
Nem muitas vezes onde, como e quando morrer

Vida e morte
Inicio e fim

O mundo é criado quando nascemos
E acaba quando morremos
Conhecemos de perto as coisas, os seres
Seguimos uma vida quase que ditada
Como personagens em um grande romance

Elementos funcionais de um ciclo vicioso
Porcas, parafusos e catracas
Da engrenagem de uma máquina viva universal

Controlados pelo tempo
Tempo contado no relógio
Hora de trabalhar
Hora de dormir
Hora de comer

Temos horas
E a falsa impressão de controlarmos elas
Já não temos mais tempo
Vivemos correndo
E agora está passando a hora de realmente vivermos

Jonatas Pierre

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Imagine Só

Imagine se todos parassem ao mesmo tempo
Nos quatro cantos do mundo
Exatamente onde e como estão
E ficasse um dia
Apenas um dia completamente parados

Caos e paz ao mesmo instante

Imagine se todos parassem de produzir ao mesmo tempo
Nos quatro cantos do mundo
Simplesmente não comprariam também
E ficassem dois dias
Apenas dois dias completamente sem produzir e sem comprar

Paz e caos ao mesmo instante

Agora imagine se toda a natureza parasse de viver ao mesmo tempo
Nos quatro cantos do mundo
Exatamente sem qualquer movimento
E ficasse trinta minutos
Apenas trinta minutos completamente parada

Caos completo

Jonatas Pierre

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Escrê e Vendo

Estou escrevendo
Escrevendo para uma moça qualquer
Que não tem nome
Não tem forma e nem endereço

Que sempre sorri
Que me pisca os olhos
E mexe as sobrancelhas

Arruma os cabelos
E morde os lábios
Que abaixa o rosto
E fita um olhar

Olhar tímido e com desejo
Fera inocente
Puro brilhar de alma limpa
Que me hipnotizam
Convidam-me para dançar
E me chamam para sair por ai
Sem ter hora de voltar

Ela não é como se espera
E não adianta esperar
Ela é todas em um só ser
Ela está em todos os lugares
Em cada esquina
Sentada em todas as pedras
Ela está no espelho
E talvez lá nem todos possam entrar

Ah se eu pudesse entrar nesse espelho
E seu lindo rosto tocar
Seu cheiro sentir e em suas mãos pegar
Roçar seus cabelos e bem próximo ao seu ouvido falar

Falar as mais belas poesias
Em doces melodias
Com leves harmonias
Falaria do sol
Falaria da vida
Falaria das cores
Dos sabores
Dos serenos e do luar

Falaria do amor
Que acaso seria um descobridor
Aventurando a falar por ele
A essa bela flor

Do amor que é um mistério
Que se desenha dentro de cada coração
O amor é um convidado estrangeiro a cada chegada

Seria um reencontro
De duas peças que na infância foram separadas
Um envolver dos corpos
Que a muitos se buscavam

Ela passaria a ter forma
Diante meus olhos
Ela atravessaria o espelho de volta

Os astros bateriam palmas
As estrelas assobiariam
As ondas por um instante cessariam
E os bichos começariam a cantar

Não sei se algum dia essa moça do espelho vou encontrar
Mas um dia desses posso ser encontrado
Pois posso estar em um espelho
De uma moça qualquer que me busca encontrar

Jonatas Pierre

domingo, 30 de outubro de 2011

Dança

Queria soprar
Soprar um ventinho
Um ventinho de felicidade
Pra invadir canto qualquer
Em qualquer canto da cidade

Estou apaixonado pelos sons
Pelas notas
E pela ausência delas
Sou um apaixonado

Talvez como uma pipa
Dessas que enfeitam o céu limpo de nuvens
Dessas que giram
Que giram sem parar

Que dança com os pássaros
Que desce rasante
E logo com mais linha
Finge que cai
E basta uma seguradinha
E está lá toda empinadinha

Dança
Dança de um lado para o outro
E balança as fitas
E levanta pescoços
E seduz olhos
Arranca sorrisos
E enfeita o céu

Jonatas Pierre

domingo, 16 de outubro de 2011

Ami

Existe algo que não tem preço
Não tem tempo
Não tem lugar
Não tem tamanho e nem medida

Não possui forma
Não se pode pegar
Não se vende
E nem se pode alugar

Não ver cor
Não faz juízo
Não se troca
E nem fica solto pelo ar

Sente-se no peito
Sente-se na alma
É todas as cores
Todos os cheiros e todos os sabores

Está nos gestos
Nas ações e nas palavras
Nos abraços e nos olhares
Está na mente
No coração e em todas as células

Está presente
É um presente
É o sol, a chuva e o luar
É o choro, o sorriso
É a esperança, é o despertar

É o mistério revelado
É o inexplicável explicável
Sem fronteira, sem passagem
Sem pedágio ou hospedagem

É puro
É essência
É tudo
É qualquer lugar

É simples
É felicidade
É amor
É a AMIZADE

Jonatas Pierre

sábado, 15 de outubro de 2011

A Pai Xonado

Seria tudo verdade?
A única forma de saber é perguntando e ele não tem tamanha coragem.
Prefere esperar.

Não sabe o que é o tempo,
Mas segue o dito popular:
Acredita que se tiver que ser, será.

É muito pessimista para acreditar,
Procura num gesto ou num olhar,
Fica sem jeito ao se aproximar.
Erra palavras, deixa cair o papel,
Sorri sem graça e tenta disfarçar a vergonha.

Soa frio.
Sente o coração disparar.
Fica nervoso
E nos olhos dela não consegue olhar.

Nunca sentira isso.
A respiração muda ao lado dela
O corpo fica como que flutuando
Tem a certeza que está apaixonado.
Está escrito em seus olhos: Estou amando.

Jonatas Pierre